domingo, 19 de outubro de 2008

TRECHOS DA ENTREVISTA COM JURACI XAVIER PASSINHO, TATA RIÁ NKICI DO UNZÓ KUNA NKISI TUMBENCI MALAULA



ENTREVISTADORA: KOTA MUTARERÊ – 08 DE FEVEREIRO DE 2005

Quer dizer então que desde o início de nossa Raiz que existe muita ligação entre as festas da Igreja Católica e as festas do Candomblé?

- Perfeitamente. Minha Mãe era muito católica.Naquele tempo o Candomblé era tido como seita. O sincretismo religioso com a Igreja era normal.Cada um sabia o que estava fazendo e para quem estava rezando.Após as obrigações de feitura levava-se os muzenzas em 7 igrejas e em 7 terreiros. As Mam’etus e Tat’etus rezavam o terço, o rosário, acompanhavam as procissões. Muita gente virava no santo durante as procissões. Ela estudou, acho que só o primário; mas naquela época o primário era muito forte, dava para a pessoa ficar muito conhecedora das coisas.Ela foi muito bem educada num Colégio de Freiras, o Colégio das Mercês. Ela conhecia e fazia alguns finos bordados, conhecia Geografia, História, gostava de conversar sobre essas coisas, era muito inteligente.

Um dia ela me disse assim: Juraci, (ela me chamava assim) se eu lhe pedir uma coisa você faz? – eu disse logo: Faço sim minha Mãe, o que é? Ela disse: Quando você puder, faça uma igrejinha aqui e marcou o lugar. A igrejinha é aquela ali, defronte ao barracão; fiz ao pedido dela, inclusive a Padroeira é Santa Luzia, como ela queria.Porque o terreiro da Mãe dela, Mam’etu Maria Neném, se chamava Terreiro de Santa Luzia, Tumbenci, Fé e Razão,(Cá te Espero), o dela se chamava Terreiro de Santa Luzia, Tumbenci Filho, Fé e Razão; o meu era para se chamar Terreiro de Santa Luzia, Tumbenci Neto...mas, aí a Federação do Culto Afro-brasileiro cortou o sincretismo e pediu que mudasse para: Unzó Kuna Nkisi Tumbenci Malaula Bandusi Zambi.Lembamuxi tirou o “Cá te Espero”, com justa razão, porque parece acintoso e hoje em dia a frase seria considerada provocação, não é? Mas naquele tempo era para ameaçar mesmo, porque antigamente quando se falava de Candomblé é como se fosse hoje drogas, maconha, cocaína, era uma perseguição, talvez até pior.

Em 1930 no Governo do Coronel Juraci Monte Negro Magalhães, dizem que ele era feito no santo e era de Oxalá, foi que se melhorou a situação do Candomblé, porque antes se tirava licença na polícia.

Mas, do jeito como as coisas vão... O Candomblé tem sido muito atingido pelos evangélicos.Eu mesmo sou agredido aqui na minha porta constantemente, só não é pior, porque eu sou brabo, boto pra fora e ainda dou uma mãozada pela focinheira. Jogo cadeirada na cabeça deles, jogo abô

daqueles bem terríveis em cima deles, jogo pemba, jogo duro mesmo com eles, se não... Se é com outro mais manso eles já tinham me tirado daqui.

É minha filha, Deus é Amor, Nkisi é Amor, mas nem sempre se pode ser como você é, só amor. Por isso eu digo que o seu marido, o seu irmão, seu filho é que vão ter que tomar a frente nessas horas porque você é uma moça fina e educada, não vai jogar cadeira na cara dos outros.

Agora vejam só: aqui a Federação, o Apo Afonjá, a partir de Mãe Stela, combateram o sincretismo e lá na África, principalmente em Angola, cada dia se constroem mais igrejas e o povo continua com suas tradições de magia e vão para as igrejas, sejam católicas ou protestantes, e agora? Estão do mesmo jeitinho que a gente fazia aqui. Até quando morrem depois do Mukondo o caixão vai para a Igreja... Êta mundo de meu Deus!

Alguns Tatás riá Nkisi trabalham manifestados com Exus. Aqui neste Unzó não se faz festa de Njila, e, nem o senhor e nem os seus filhos recebem esse Nkisi para trabalhar manifestado. Na realidade eu nunca vi nenhum filho desta casa manifestar, trabalhar manifestado ou mesmo em festa de Njila. Por quê?

- Minha Mãe me ensinou que o mutuê que leva adôxu para assentar Nkisi, não pode passar Njila e nem Njila é Nkisi para ser dono de mutue. Se alguém está fazendo diferente e está dando certo, é porque receberam outros fundamentos diferentes dos meus. Em nossa nação Ciriaco fez um assentamento de Njila no mutuê de uma filha de santo dele. O negócio foi tão melindroso que até ele mesmo tinha medo do Njila. E a criatura não foi feliz. Para que isso? No meu modo de ver, as pessoas devem fazer santo para terem paz, alegria de viver, saber suportar as adversidades da vida porque sabe que o santo está ali do seu lado. Não se faz santo para ficar rico, para ter poder sobre outras pessoas, para matar os inimigos. Nada disto. Se faz santo para equilibrar a vida, ajudar as pessoas, enfim cumprir a existência sendo útil a todos os reinos da natureza.

(COLETÂNEA TATA GONGOFILA)

2 comentários:

Mam´etu Mutarerê disse...

Obrigada por publicar trechos da entrevista mano Gongofila.

Meu pai Passinho é um exemplo de vida, de fé e respeito à nossa religião. Para mim é um ícone do Candomblé de Angola com mais de meio século de santo feito e setenta e poucos anos de idade... Vive para o santo e para a sua familia.

Se quizerem me dar o prazer conheçam a casa onde re nasci no meu space: http://candombleculturabantu.spaces.live.com/

Denise disse...

Muito boa essa entrevista, embora seja da Raiz Tumbenci, mostra claramente a intenção da casa.

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